REPORTAGEM

Partiu aos 89 anos o comissário Armando Matavele, que fez da sua vida uma missão de bondade

Maputo, 02 de Novembro de 2026-O voluntário da Fundação de Caridade Tzu Chi faleceu esta madrugada, no Hospital Central de Maputo, deixando um legado de compaixão no Bairro da Hulene

Armando Matavele tinha 89 anos. Partiu o homem que, mesmo com o corpo fragilizado pela doença e pelo peso do tempo, fez de cada quarta-feira uma renovação do seu compromisso com o próximo.

Durante anos, quando muitos da sua idade já descansavam, o Comissário Armando preparava-se para sair de casa rumo ao mesmo lugar: o encontro semanal com os beneficiários da Tzu Chi.

Ao seu lado ia quase sempre a esposa, a Avó Rosa Ndzeco, de 87 anos. Juntos, formaram uma das imagens mais inspiradoras do voluntariado em Maputo. Hoje, a Hulene chora quem lhe ensinou que a bondade não tem idade.

“Para ele, a idade nunca foi uma barreira para continuar a semear sementes de bondade nos outros”, recordam os que o acompanharam de perto. Através de palavras e de gestos simples, Armando transmitiu, até ao fim, os valores que deram sentido à sua vida.

Um encontro que mudou tudo

A caminhada de Armando com a Tzu Chi começou em 2014. Tinha então 77 anos, era ainda solteiro, e aproximou-se da Fundação movido por um desejo sincero: aprender os ensinamentos da Mestra Cheng Yen e compreender mais fundo os valores da compaixão, da bondade e do serviço ao próximo.

Apesar da idade avançada, surpreendeu toda a gente pela determinação e pela vontade de aprender. A partir daquele momento, iniciou uma jornada de transformação que o levou não só a acolher aqueles ensinamentos no coração, mas também a partilhá-los com os outros. Pelo caminho, teve mestres. Foi muito o que aprendeu com a Comissária Ana Maria, que se tornou uma das suas maiores fontes de inspiração e o ajudou a aprofundar, ano após ano, a sua compreensão do caminho.

A doença que não apagou a missão

Nos últimos tempos, a saúde de Armando era frágil. A doença trouxe-lhe dores e limitações, e exigia cuidados constantes. A Dra. Cacilda Cauio, médica voluntária da Fundação, acompanhou de perto a sua situação, oferecendo-lhe atenção e conforto neste período difícil. “Cuidar dele era reconhecer o valor da sua história de vida”, lembram os voluntários. “Quem passou tantos anos a semear bondade também merecia receber cuidado e compaixão.”

Mas a fragilidade do corpo nunca diminuiu a força dos valores que guardava no coração. Mesmo doente, Armando mantinha-se grato pelos ensinamentos e pelo carinho da equipa de saúde, e recusava-se a parar. Continuou a fazer visitas domiciliárias a outros idosos e doentes, levando-lhes palavras de conforto, coragem e esperança.

Numa dessas visitas, chegou a casa de Elisa Mazivila, 87 anos, mãe de três filhos que vive sozinha. O encontro começou com uma oração conduzida pelo próprio Armando, que, com serenidade, ofereceu à beneficiária palavras de fé e de esperança. Ao perceber o quanto ela estava doente, rezou com profunda compaixão, pedindo força e proteção. Antes de partir, deixou, como quem deixa um abraço, um quilo de açúcar — o gesto pequeno que, saído de um coração bondoso, se faz grande.

Um amor que se fez missão

A história de Armando foi também uma história de amor. Em 2019, casou-se com Rosa Ndzeco, numa cerimónia tornada possível com o apoio da comunidade da igreja. Desde então, tornou-se seu companheiro também no caminho dos ensinamentos da Mestra Cheng Yen, inspirando-a a seguir o mesmo rumo da bondade.

Antes de saírem para partilhar os ensinamentos com o bairro, o casal sentava-se em casa a refletir sobre os Aforismos de Jing Si. Nesses momentos, aprendiam um com o outro e aprofundavam a compreensão, para depois a levarem às comunidades vizinhas através das palavras e das ações. A missão tornou-se uma jornada que percorreram lado a lado, unidos pela fé, pela aprendizagem e pelo desejo de fazer o bem.

Nos últimos tempos, com a saúde de Armando mais fragilizada, foi Rosa quem permaneceu ao seu lado em cada detalhe. Ajudava-o a tomar banho, preparava as refeições, amparava-o nos momentos mais difíceis. A sua presença foi muito mais do que companhia: foi uma demonstração diária de amor verdadeiro, feita de cuidado, de paciência e da decisão de permanecer juntos, mesmo quando a vida se tornou mais dura. E a Avó Rosa não acompanhou apenas — também ela se tornou mensageira dos ensinamentos, partilhando com os voluntários o que aprendia ao lado do marido. O conhecimento que cresceu dentro daquele casamento ultrapassou as paredes de casa e chegou à comunidade. É a ela, agora, que a Fundação dirige as suas primeiras palavras de conforto e solidariedade.

“Um coração cheio de amor nunca deixa de servir”

Sempre que Armando chegava ao local onde se partilhavam os ensinamentos, era recebido pelos voluntários com afeto e gratidão — um acolhimento que espelhava a admiração por tudo o que ele representava. Os voluntários da Hulene, que tantas vezes lhe desejaram força e saúde, reconhecem hoje no casal exemplos vivos de sabedoria, amor e dedicação. “Ainda temos muito a aprender com eles”, costumavam dizer. E continuarão a aprender, agora com a memória de quem partiu.

Acompanhado pela esposa, o Comissário Armando Matavele demonstrou, até ao último dia, aquilo a que a tradição chama o espírito de Bodhisattva: a prova de que, mesmo quando o corpo enfrenta limites, o coração permanece firme no caminho da bondade.

A Fundação de Caridade Tzu Chi em Moçambique presta a sua homenagem a este voluntário dedicado e endereça as mais sentidas condolências à Avó Rosa Ndzeco, à família, aos amigos e a toda a comunidade da Hulene. Que descanse em paz.

Somos  uma organização Moçambicana sem fins lucrativos fundada em 2012 dedicada ao serviço altruísta.

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