
Maputo, 24 de Abril – No interior do bairro George D’Mitrove, na periferia da capital moçambicana (Maputo), vive a voluntária Amélia Nhaca, uma mulher cuja história é um exemplo de que generosidade é uma dadiva que floresce mesmo limiar da pobreza.
Trata-se de Amélia Jeremias Nhaca, de 65 anos. Amélia Naca mãe, avó e voluntária, dedicada da Fundação de Caridade Tzu Chi Moçambique. Ao lado de dois filhos e seis netos, ela transforma diariamente desafios em força para continuar.
No limiar da pobreza, a sua casa apoia-se parcialmente no muro do seu vizinho. Em dias de chuva, a água invade o interior, obrigando-a a espalhar bacias, baldes e latas para conter as infiltrações.
Mesmo assim, é neste espaço limitado que Amélia acolhe os seus quatro netos, enquanto os filhos, já casados, precisam ser acomodados em casas de familiares.
No passado, tentou sustentar a família através da venda de vegetais, mas enfrentou forte concorrência e dificuldades que a levaram a abandonar a actividade. Ainda assim, reinventou-se, encontrando na recolha de recicláveis uma forma de continuar a lutar.
A sua história de Amélia Nhaca é também uma inspiração para os seus próprios filhos, Joaquim White Quembo, ex-militar. Após sobreviver a um grave acidente na África do Sul — onde o autocarro em que seguia capotou e incendiou-se — Joaquim ficou com queimaduras severas que o tornaram inapto para continuar a sua carreira.
Desde então, enfrenta dificuldades para conseguir emprego, pois as sequelas impedem-no até de usar calçado adequado, levando muitos empregadores a rejeitá-lo. Mesmo diante de tantas adversidades, Joaquim encontra inspiração em sua mãe (Amélia Nhaca).


“É uma mulher que nunca desistiu e que sempre encontrou formas de colocar comida na mesa. Esteve ao meu lado nos momentos mais difíceis e, por isso, para mim é uma inspiração”, declarou o antigo militar.
Apesar das dificuldades, Amélia nunca cruzou os braços. Para sobreviver, ela recolhe e vende de garrafas plásticas e latas que apanha nas ruas de Maputo, sobretudo em contentores de lixo.
Com dignidade e dedicação, Amélia prepara cuidadosamente as garrafas que recolhe — limpa, organiza e aguarda o comprador que, ocasionalmente, passa pela sua casa. É um trabalho árduo, mas feito com esperança e muito amor.
Cada material recolhido é vendido por apenas um metical, um valor para alguns insignificante, mas que para ela representa a base para o seu sustento da família, actualmente ameaçado pela conjuntura económica global e por novas regras que limitam o consumo de bebidas em lojas moçambicanas.
Os tantos desafios que enfrenta não a impedem de pensar nos que mais sofrem e, por isso, em 2013, decidiu juntar-se à Fundação de Caridade Tzu Chi Moçambique, a convite de uma amiga.
Hoje, Amélia Nhaca está na linha da frente entre as mulheres voluntárias que se juntam diariamente nas primeiras horas do dia em Maputo para cultivar a terra e a produção beneficia várias pessoas em situação de vulnerabilidade nos projecto da Tzu Chi.
Actualmente, a Fundação Tzu Chi serve refeições quentes a pessoas em situação vulnerável em pelo menos cinco bairros da cidade de Maputo, além de alimentar mais de 4.000 alunos na província de Sofala. Parte deste alimento vem dos esforços de voluntários desta fundação nestas machambas.


“É um trabalho ao qual me dedico de coração porque sei que há pessoas que sofrem muito mais. Apesar de ter os meus próprios problemas, eu vou continuar a tentar ajudar os outros”, explica Amélia Nhaca.
A história de Amélia é mais uma prova de que a generosidade floresce mesmo diante de desafios, um testemunho vivo de coragem, amor e esperança, numa altura em que, quando a fundação celebra globalmente 60 anos, entre os voluntários, renova-se o propósito e convicções.
A Tzu Chi é a maior organização humanitária budista do mundo e foi fundada em 1966 pela Venerável Mestre Cheng Yen. “Tzu Chi” significa “compaixão e alívio” e a missão da fundação é aliviar o sofrimento humano, através de actos de bondade e serviço desinteressado.
Presente em mais de sessenta nações, a Tzu Chi presta apoio a todos quantos necessitam, sem distinção de credo, raça ou nacionalidade, sendo movida por elevados princípios morais e espírito de abnegação.
Em Moçambique, a Tzu Chi foi fundada em 2012 por Denise Foi, estando focada no apoio às comunidades em diversas áreas, com destaque para educação, agricultura, saúde e assistência às populações, sobretudo em períodos de emergência face às cíclicas calamidades naturais que têm afectado o país.
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